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A (im)possível missão da conjugalidade


A (IM) POSSÍVEL MISSÃO DA CONJUGALIDADE

Lia Cunha Poletto

Psicanalista

 
 
          A conjugalidade não é um conceito psicanalítico, mas uma realidade social, e como as metamorfoses histórico-sociais da conjugalidade são contínuas. Com a psicanálise podemos tecer algumas considerações.
         
          O mito de um casamento perfeito que supere todas as diferenças pelo amor, continua a fazer sucesso nas telas de cinema, nas novelas e não só nelas, a tônica é sempre a mesma: a promessa de felicidade e realização total.
 
          A elevação do sentimento amoroso como condição e critério do sucesso do casamento é um acontecimento muito recente na história da civilização. Alguns historiadores o identificam por volta de 1930, relacionando-o com a dissolução da sociedade tradicional e a crescente industrialização.
 
          Assistimos então a progressiva separação dos espaços privado e público, até então mesclados. A universalização do trabalho assalariado teve por efeito isolar estes dois espaços. O espaço privado, reservado à família. O público, reservado ao trabalho e relações sociais.
 
          O casamento até essa época era concebido como a união de dois patrimônios familiares com vistas à constituição de uma descendência, não requerendo dos cônjuges nada mais que, a mútua compreensão e estima. Casava-se porque fazia parte das necessidades sociais, culturais e econômicas e, se acontecia de não serem muito infelizes, era em função do acaso.
 
          O casamento moderno, pós-revolução industrial, calcado no amor e na paixão, tem dado conta do ideal de felicidade tão almejado?
 
          Ariès cita que: ”a conjugalidade vem se tornando lugar de sofrimento a partir do momento no qual ela não é mais uma decisão de conveniência, deixada à iniciativa das famílias segundo os imperativos sociais e patrimoniais, mas começa a supor e exigir que seu fundamento seja o amor pleno. Fenômeno, este, próprio da modernidade.”
 
          Não só nos contos de fadas e mitos, o casamento é sinônimo de absoluta realização e recompensa.
Numa reportagem publicada na revista Veja, chamou-me a atenção um artigo do psicólogo americano Connel Cowan, terapeuta de estrelas hollywoodianas e co- autor do best-seller “Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas”, disse que: ”O amor e felicidade eterna num casamento são possíveis” e, recomenda: aceitação do outro, mulheres fortes devem procurar homens fortes e etc. Enfim, aconselha como as mulheres e homens devem agir para se envolver em relações conjugais saudáveis e eternas.
 
          A leitura da reportagem no mínimo nos gera um questionamento: afinal, por que hoje é tão difícil manter um casamento? Se esses conselhos estão sendo cumpridos (as pessoas buscam avidamente por eles a todo instante), por que então tantas desilusões amorosas e separações?
        
          A conjugalidade sofre de um sonho e de um imperativo moderno, pelo qual não estamos mais dispostos a escolher nossos parceiros mais significativos a não ser por paixão.
Essa constatação não faz com que sua possibilidade seja comprometida?
 
As religiões com seus conselhos mencionam e fazem apologia de determinados princípios para se ter um casamento feliz.
São comuns regras como, “não cobiçar a mulher do próximo, ser fiel, etc...” Só com um porém, a religião enfoca que a felicidade não é bem aqui na terra e sim depois da morte, junto a Deus.
Quem hoje, se atreve a deixar alguma coisa para depois? E ainda mais para depois da morte?
          Vivemos tempos que, com a ajuda da mídia, e consumo de todas as ordens, a felicidade é uma exigência, deve ser aqui e agora.
  
          Freud, em “A introdução ao Narcisismo” (1914) cita que: “o amor consiste em supor o ideal de si mesmo no outro, sendo, portanto, essencialmente narcísico a gênese do enamoramento”.
          O dizer popular dos apaixonados “você é o pedaço que faltava para eu ser feliz”, “sou meia pessoa sem você”, parece confirmar o que Freud já falava em 1914.
          O ser humano constrói uma imagem ideal, tanto de si mesmo como de seu objeto amoroso, que vem precisamente completar o que falta ao eu para chegar a essa perfeição. Perfeição essencialmente idealizada.
          O cotidiano da vida de um casal evidencia o exposto acima, quando das intermináveis réplicas; “tu me ofendeste, não me valoriza, tudo que faço não deveria ser assim, tinha que pensar mais em mim, em nós, não só em você”. Ou seja, reprovamos o cônjuge, por não ser aquele que nós acreditávamos, imaginávamos que fosse.
 
          Uma das razões destas queixas podem estar na própria constituição do sujeito: o bebê vem ao mundo para realizar o desejo de seus pais. O relacionamento mãe-filho nos seus primórdios é de completude e alienação. Relação essencialmente indistinta. Se por um lado, ser o “tesourinho” da mamãe, é um consolo frente ao desamparo, não garante nenhuma tranqüilidade, pois o perigo agora é ser consumido por essa demanda materna.
          É nesse registro de dualidade-reciprocidade mãe-filho, que se faz presente o papel imprescindível do pai (não necessariamente biológico). É necessário que ele venha romper com a ilusão de completude, exercendo a função interditora e salvando a criança de ser puro objeto da mãe.
          Dessa forma a criança entra no mundo da cultura, das relações humanas.
É renunciando ao primeiro objeto de amor (mãe), que satisfaz unicamente seu desejo, que instaura a falta. Esta é a condição para que cada um se lance na procura de outros objetos substitutos.
Mesmo que nunca o encontre plenamente, a relação conjugal pode ser tomada como um desses substitutos e, ao não encontrar o que lhe falta é o que permite a continuidade do desejo que a cada dia se reacende.
 
 O casamento está com os dias contados? Não será esse imperativo moderno, ligado à perfeição, a supra felicidade, que compromete a possibilidade de estarmos casados?
Filio-me a Calligaris, que em vez de procurar a receita da  felicidade ideal e imaginária, devemos aprender a desistir um pouco desta louca e desenfreada exigência.
 
 
 
 
 
Referências Bibliográficas
ARIÈS, P. e DUBY, G. A história da vida privada. Volume I. São Paulo, Cia. das letras, 1990.
FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: Uma Introdução (1914) In: Obras Completas. Rio de Janeiro, Imago, 1974.Vol. XIV.
CALLIGARIS, Contardo; et. Al. O laço conjugal. Porto Alegre, Artes e Ofícios e Associação Psicanalítica de Porto Alegre. 1994   
 
 
 
liacpoletto@gmail.com

 


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