Ensaios

Ensaio Sobre o Narcisismo e a Constituição do Eu em Freud


Ensaio Sobre o Narcisismo e a Constituição do Eu em Freud

Alexandre Petry

O narcisismo no senso comum sempre foi colocado como algo negativo, de mau gosto e pejorativo, sendo de certa forma considerado um defeito em certos sujeitos. É para a sociedade um “colocar a si mesmo acima do outro”, um gesto ou ato em que o sujeito acredita ser algo a mais e superior aos outros indivíduos em seu redor. Esse pensamento levemente se assemelha as noções psicanalíticas de fato, entretanto, tal posição para a psicanálise é uma necessidade na condição de ser humano, e não uma posição voluntária das pessoas.

            O termo se vincula diretamente ao mito de narciso, história em que o seu protagonista é apaixonante por causa de sua beleza, porém possui uma personalidade fria diante dos outros que clamam pelo seu amor. No clímax da história, o personagem acaba por ver a sua própria imagem no espelho de um rio, se apaixonando também pela sua própria imagem, o levando a ruína e sua morte. Apesar de vários autores terem utilizado o termo narcisismo na história da psiquiatria e da psicopatologia, foi em Freud que o termo ganhou de fato um valor considerável e pautado para os fenômenos psíquicos, citando-o várias vezes até de fato escrever um texto completo voltado para ele em 1914, Sobre o narcisismo (NASIO, 1997).

            Em tal texto, Freud escreve sobre as duas etapas distintas do narcisismo do sujeito. Antes mesmo de elas surgirem, existe no bebê o auto-erotismo, isto é, quando as pulsões ligadas ás zonas erógenas, consideradas também como parciais, se ligam e se voltam para o próprio corpo do sujeito, em um período em que o sujeito se satisfaz em si mesmo. Ela está intimamente ligada ao narcisismo primário, em que tal sujeito acredita ser completo e onipotente, o período chamado também de a “majestade bebê”. Os pais, principalmente o representante materno, incentivam e transmitem para o bebê tal fantasia, de que ele é completo e que, de fato, o mundo gira em torno da criança. É um período em que os pais acabam tendo o seu narcisismo revivido, tentando com isto evitar que a criança tenha frustrações da mesma forma que eles evitaram ter. “O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é se não o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior” (FREUD, 1914).

            Entretanto, logo após um período de suposta felicidade pleno, surge um narcisismo secundário. A entrada de um pai, de uma lei, e de outros sujeitos na relação díade com a mãe, irá progressivamente dissolver esta imagem da criança acreditar ser o centro do universo e de sua onipotência. Ela perceberá que a figura da mãe lhe dá atenção e carinho, mas também dá a outros, e que vive fora da organização psíquica e física do bebê, de tal forma que o bebê criará e terá como missão própria tentar agradar e reconquistar o amor do outro, para poder amar a si mesmo (NASIO, 1997).

Assim, no narcisismo secundário, o bebê começa a estabelecer seus parâmetros de sujeito, colaborando com a sua formação do eu. Pois então, ao invés do narcisismo primário, em que o sujeito busca prazer apenas em si e em direção a si, no narcisismo secundário o sujeito irá buscar satisfação no outro, para que tal volte para o próprio sujeito. O outro se torna um objeto de satisfação pautado para o Eu do sujeito. O mediador da seleção dos objetos a serem escolhidos, venerados e que tentarão ser alcançados pelo Eu será o ideal de Eu do sujeito, para que seja assim possível tentar alcançar o Eu ideal perdido, que supostamente ele acreditou ter possuído anteriormente no seu narcisismo primário, isto é, o seu suposto momento de completude e perfeição. Tal dualidade, ideal de Eu versus Eu ideal, será constante na formação do narcisismo do sujeito:

Esse Eu ideal é agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na infância pelo Eu real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo Eu ideal, o qual, como o Eu infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um Eu ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal (FREUD, 1914).

            Já a formação do ideal de Eu, como Lacan (1936 apud BIRMAN, 2007) afirma está mais ligada a algo que ele tenta alcançar de forma perfeita. Sendo uma parte do supereu, permanece então muito mais ligada á figura paterna de instância de lei nas relações do sujeito em sua vida infantil. Esta figura paterna justamente serve como separadora da relação fusional entre o sujeito e a mãe.

            Antes de 1914, Freud ainda não havia estabelecido em si uma teoria sobre o que seria o Eu. Em seu texto sobre o narcisismo, entretanto, ele começa a estipular o que de fato consiste tal instância psíquica, e afirma que ela está ligada diretamente com o narcisismo, sendo estabelecido, formulado e construído por meio do mesmo. Os investimentos libidinais, pautados pelo ideal de eu nos objetos fora do eu, irão constituir o eu do sujeito, os seus gostos, ideias, noções, complexos, defesas, etc. Pode ser dito que a formação do eu se representa a partir de reflexos dos objetos externos amados e idealizados, ele é, portanto “talhado á imagem do objeto” (NASIO, 1997, p.53).

Lacan, em seu primeiro seminário, Os escritos técnicos de Freud (1953), ao retomar a questão dos dois narcisismos, também irá traçar a formação do Eu estritamente ligado a passagem por tais etapas. Ao trabalhar com o estágio do espelho, etapa de desenvolvimento da constituição do ser, Lacan dirá que o reconhecimento do outro como objeto de desejo é fundamental para que o sujeito forme o seu Eu:

O outro tem para o homem um valor cativante, pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda realidade do semelhante. O outro, o alter ego, confunde-se mais ou menos, segundo as etapas da vida, com o Eu ideal, esse ideal do eu invocado o tempo todo no artigo de Freud. A identificação narcísica – a palavra identificação, indiferenciada, é inutilizável -, a do narcisismo, é a identificação ao outro que, no caso normal, permite ao homem situar com precisão a sua relação imaginária e libidinal ao mundo em geral. Está aí o que lhe permite ver no seu lugar, e estruturar, em função desse lugar e do seu mundo, seu ser. (LACAN, 1953, p.148)

            Assim, durante o desenvolvimento do sujeito e a sua formação, principalmente, porém também após o complexo de édipo, o narcisismo será um motor para a constituição do eu do sujeito de variadas formas e nos diversos cenários psíquicos possíveis. O Eu se identifica com os objetos amados, e vai sendo formado por eles. No complexo de édipo ele fará então identificações ligadas a fórmula que ele crê como necessárias para alcançar o seu objeto de desejo: se identificar com o pai para desejar a mãe, ou se identificar com a mãe para desejar o pai. Tal estágio também aponta a uma dura mudança em sua fantasia de onipotência, em que o sujeito acreditava que era tudo.

            Assim, a constituição do eu é pautada por duros e difíceis processos de formação. Os seus objetos, bem como suas vivências, serão extremamente impactantes na formação do eu como sujeito. Durante a sua construção, o narcisismo se mostrará como uma ferramenta essencial, já que será obrigado a estabelecer as noções dos desejos do id, das ordens do superego, ligadas ao ideal de eu, e também das relações do eu com tais instâncias e com a realidade externa, constituindo assim, a personalidade do sujeito. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

 

BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 6 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo (1914). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol 14. Rio de Janeiro: Imago, 2006. 

LACAN, Jacques. Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1953.

NASIO, J. D. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

 

Imagem: Recorte da imagem "Eco e Narciso" de John William Waterhouse - Domínio público.


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