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Considerações Sobre a Proposição Lacaniana de que o Aparelho Psíquico de Freud, Exposto no “Projeto”, é uma Experiência de Ordem Moral


Návia T. Pattussi, Psicanalista.

Eu quero compartilhar com vocês os movimentos do meu pensamento e do meu agir ao tentar compreender a proposição de Lacan, no Sem. 7, “A Ética da Psicanálise” onde na página 41 ele coloca que na leitura do Entwurf “...vocês perceberão que, sob essa forma fria, abstrata, escolástica, complicada, árida, percebe-se uma experiência, e que essa experiência é, no fundo, de ordem moral.”

A primeira questão que me surgiu, em função de que essa assertiva está no Seminário sobre a Ética, é por que Lacan considera que essa experiência é de ordem moral e não ética? Principalmente por que também na apresentação do assunto a ser estudado neste Seminário Lacan coloca que “Falando de ética da psicanálise escolhi uma palavra que não me parece por acaso. Moral, poderia ainda ter dito. Se digo ética, verão por que, não é pelo prazer de utilizar um termo mais raro.” (p.10). Apesar de muitas vezes, pelo menos na minha leitura de algumas partes deste Seminário parecer que Lacan usa esses dois termos como sinônimos, noutras ele parece fazer uma diferenciação nítida que me faz interrogar sobre as suas implicações na mensagem que ele quer transmitir. Talvez essa curiosidade não tenha muito sentido, mas sabemos o quanto Lacan, assim como Freud, são rigorosos quanto aos termos que usam.

Indo em busca da etimologia das palavras ética e moral, no Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia (Lalande, 1999, p.348), é colocado que “Historicamente a palavra Ética foi aplicada à Moral sob todas as suas formas, quer como ciência, quer como arte de dirigir a conduta.”

Também no Vocabulário de Filosofia Lexicon, Peter Singer assevera que

Os termos Ética e Moral são por vezes usados indistintamente, sendo mesmo equivalentes em numerosos textos.”

Tal indistinção possivelmente se apóia na identificação do significado etimológico das duas palavras. Segundo Marilena Chauí no seu livro “Convite à Filosofia”, (Chauí, 2008, p.307) 

- Moral Vem de uma palavra latina, mos, moris, que quer dizer “o costume”, e no plural, mores, significa os hábitos de conduta ou de comportamento instituídos por uma sociedade em condições históricas determinadas.

- Ética – Vem de duas palavras gregas: éthos, que significa “o caráter de alguém”, hábito e êthos, “o conjunto de costumes instituídos por uma sociedade para formar, regular e controlar a conduta de seus membros.”

Essa decomposição está descrita no livro II da Ética a Nicômaco, onde Aristóteles coloca enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome "êthikê”, por uma e pequena modificação da palavra "éthos" (hábito).

Porém, no Lexicon, Vocabulário de Filosofia (Site ocanto.esenviseu.net/lexicon/etica.htm) a distinção pode fazer-se referindo a moral à prática concreta dos homens enquanto membros de uma dada sociedade, com condicionalismos diversos e específicos -- enquanto a ética é a reflexão sobre essas práticas. De fato, a existência de idéias e atitudes morais não implica a presença de uma disciplina filosófica específica (mesmo o seu estudo, que pode ser ocupação da Sociologia ou da Antropologia). A Ética supõe a sua justificação filosófica, a sua explicação racional

 Schelling (Lalande, 1999, p.348) também coloca “A moral em geral coloca um imperativo que só se dirige ao indivíduo, e exige apenas a absoluta personalidade do indivíduo; a Ética coloca um imperativo que supõe uma sociedade de seres morais e assegura a personalidade de todos os indivíduos através daquilo que ela exige de cada um deles.”

Lalande (1999, p. 348) distingue Ética como a ciência que tem por objeto o juízo de apreciação, enquanto este se aplica à distinção entre o bem e o mal.

O filósofo Paulo Ghiraldelli no Portal da Filosofia define: “Ética diz respeito ao ethos, ao comportamento geral ou coletivo, diz respeito a regras aplicadas a todos. A Moral é individual e não necessariamente é conciliável com os preceitos éticos. Os ódios e revoltas particulares são de ordem moral, assim como as atitudes individuais, os gostos, o temperamento. A ética inclui princípios gerais para a condução do Estado, do éthos, da política. Nem sempre ética e moral são compatíveis. A primeira é de âmbito público e a última de âmbito privado.”

Lacan no Sem. 7 ( p.373, cap. XXIV )  diz: “A ética consiste essencialmente num juizo sobre nossa ação, exceto que ela só tem importância na medida em que a ação nela implicada comporta também, ou é reputada comportar um juízo, mesmo que implícito. A presença do juízo dos dois lados é essencial à estrutura.” Portanto me parece que a ética é o juizo sobre as ações que tem uma conotação moral e não em relação a qualquer uma.

A forma como Lacan concebe a moral está refletida na sua concepção de que a vivência do ser humano é uma experiência onde a moralidade além de delinear formas de sanção, também proporciona um certo direcionamento do comportamento, da ação, fato esse que vai muito além de um determinado ideal de conduta.

Relacionando isso com o que Freud propõe no Projeto quanto a forma de funcionamento do aparelho neurônico, ou psíquico, fiquei pensando como a moral se encaixaria nisso tudo, que direcionamento ela daria para este aparelho. Lacan chega a dizer que o conflito existente no aparelho psíquico é de ordem moral, isto é, vai além de uma concepção aparentemente mecanicista, de equacionamento de quantidades para manter o aparelho num certo equilíbrio. 

L. fala também que a oposição entre o principio do prazer e o princípio de realidade, a do processo primário e do processo secundário são menos da ordem da psicologia do que da ordem da experiência propriamente ética.

Aqui me ocorre que talvez a forma como se busca esse equilíbrio passe pela questão moral, isto é, do que é considerado certo ou errado, adequado ou não nas escolhas dos objetos que viriam dar vazão ao excesso de energia ou de estimulação no aparelho.

Nem todos os objetos da realidade, ou os signos da realidade são captados pelo sistema perceptivo phi e transmitidos para psi através de W. Há uma triagem ou filtragem do que é percebido e me pergunto se a questão moral e ética não estaria interferindo neste processo, assim como na seleção dos signos de descarga lingüística decorrentes da associação da fala, que seriam signos da realidade psíquica e não da realidade externa como aqueles proporcionados por W.

Segundo Freud, os trilhamentos constantes em psi seriam um dos fatores que interfeririam nestas “seleções”, onde haveria uma busca de identidade de percepção entre representação da lembrança ou do desejo e o objeto percebido - no caso do processo primário – e identidade de pensamento no processo secundário. Isso por que as representações do objeto do desejo e “os complexos perceptivos se dividem em uma parte constante e incompreendida – a coisa – e outra variável, compreensível – os atributos ou movimentos da coisa. (Freud, Imago, 502)

Das Ding, seria o componente de igualdade, o componente que se repete tanto na representação-lembrança do objeto de desejo quanto na percepção do objeto. Seria o que retorna sempre no mesmo lugar, de formas predicativamente diferentes.

Porém os trilhamentos não ocorrem somente no processo secundário que seria o responsável pela capacidade de pensar? A hipótese seria de que a moral e a ética, possivelmente dão o tom principalmente da capacidade de pensar, originária da busca de identidade entre a representação e a percepção em função da dissidência entre elas.

            Isso por que na tentativa de “montagem”, de acesso a esse suposto objeto de satisfação, que não deixa de ser uma ficção pois é fruto dos processos do pensar, poderíamos considerar que os preceitos morais internalizados pelo sujeito dariam o tom da parte predicativa do complexo perceptivo, a responsável pela diversidade de sua multiplicidade,uma vez que o objeto quer seja da percepção ( talvez seja mais correto dizer representação da percepção) ou da representação da lembrança (uma redundância?) seriam os disponibilizados pela cultura.

Nesse caso estaria considerando que a experiência moral do aparelho neurônico seria tributária da consciência, também por que, segundo Freud, é em W que há a experiência do prazer ou do desprazer. Será somente neste sistema? Como ficam as sensações que a criança sente antes de conseguir significar o que sente? Não ocorreriam em Psi – cujos processos são inconscientes – independente do Pc e W?

Mesmo por que Lacan aponta que esta vivência moral não se resume aos tributos superegóicos.

            Relacionado a isso Lacan coloca que a ética vai além das normas sociais que norteiam uma determinada sociedade. “Ela começa no momento em que o sujeito coloca a questão desse bem que buscara inconscientemente nas estruturas sociais – e onde, da mesma feita, foi levado a descobrir a ligação profunda pela qual o que se apresenta para ele como lei está estreitamente ligado à própria estrutura do desejo.”(97)

            Para mim isso faz ressonância com a colocação de Freud O DESAMPARO INICIAL DO SER HUMANO É A FONTE PRIMORDIAL DE TODOS OS MOTIVOS MORAIS (Amorrortu, 2007, 363) uma vez que na tentativa de aplacar ou reduzir a excitação decorrente dos estímulos endógenos o ser humano precisa ter acesso a objetos através de ações específicas na realidade, o que somente é possível através do auxílio de alguém, do primeiro objeto, nebenmesch, o semelhante e o estranho ao mesmo tempo, também chamado por Freud de A Coisa, ou Das Ding.

            Aqui se poderia pensar que supostamente o bem é buscado através do primeiro objeto que estaria no lugar da Coisa, a mãe o nebenmensch que seria interditado. A lei do incesto é uma lei transmitida inconscientemente de geração a geração e que intefere na busca do que seja o Bem ou a Felicidade para o sujeito. Estaria aqui o fundamento da ética do desejo desenvolvida por Lacan?

Bibliografia:

Lacan, J. SEMINÁRIO 7 – A ÉTICA DA PSICANÁLISE, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

Freud, S. PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA, v. 1, Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, 1ª edição, Rio de Janeiro, Ed Imago, 1977. 

Freud, S. PROYETO DE PSICOLOGIA, v. 1, Sigmund Freud Obras Completas, 2ª edição, Buenos Aires: Amorrortu Ed., 2006.

 


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